quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Liberdade....um cantinho do meu atelie

 



História de bem-te-vi

Cecília Meireles


Com estas florestas de arranha-céus que vão crescendo, muita gente pensa que passarinho é coisa só de jardim zoológico; e outras até acham que seja apenas antigüidade de museu. Certamente chegaremos lá; mas por enquanto ainda existem bairros afortunados onde haja uma casa, casa que tenha um quintal, quintal que tenha uma árvore. Bom será que essa árvore seja a mangueira. Pois nesse vasto palácio verde podem morar muitos passarinhos.

Os velhos cronistas desta terra encantaram-se com canindés e araras, tuins e sabiás, maracanãs e "querejuás todos azuis de cor finíssima...". Nós esquecemos tudo: quando um poeta fala num pássaro, o leitor pensa que é leitura...

Mas há um passarinho chamado bem-te-vi. Creio que ele está para acabar.

E é pena, pois com esse nome que tem — e que é a sua própria voz — devia estar em todas as repartições e outros lugares, numa elegante gaiola, para no momento oportuno anunciar a sua presença. Seria um sobressalto providencial e sob forma tão inocente e agradável que ninguém se aborreceria.

O que me leva a crer no desaparecimento do bem-te-vi são as mudanças que começo a observar na sua voz. O ano passado, aqui nas mangueiras dos meus simpáticos vizinhos, apareceu um bem-te-vi caprichoso, muito moderno, que se recusava a articular as três sílabas tradicionais do seu nome, limitando-se a gritar: "...te-vi! ...te-vi", com a maior irreverência gramatical. Como dizem que as últimas gerações andam muito rebeldes e novidadeiras achei natural que também os passarinhos estivessem contagiados pelo novo estilo humano.

Logo a seguir, o mesmo passarinho, ou seu filho ou seu irmão — como posso saber, com a folhagem cerrada da mangueira? — animou-se a uma audácia maior Não quis saber das duas sílabas, e começou a gritar apenas daqui, dali, invisível e brincalhão: "...vi! ...vi! ...vi! ..." o que me pareceu divertido, nesta era do twist.

O tempo passou, o bem-te-vi deve ter viajado, talvez seja cosmonauta, talvez tenha voado com o seu team de futebol — que se não há de pensar de bem-te-vis assim progressistas, que rompem com o canto da família e mudam os lemas dos seus brasões? Talvez tenha sido atacado por esses crioulos fortes que agora saem do mato de repente e disparam sem razão nenhuma no primeiro indivíduo que encontram.

Mas hoje ouvi um bem-te-vi cantar E cantava assim: "Bem-bem-bem...te-vi!" Pensei: "É uma nova escola poética que se eleva da mangueira!..." Depois, o passarinho mudou. E fez: "Bem-te-te-te... vi!" Tornei a refletir: "Deve estar estudando a sua cartilha... Estará soletrando..." E o passarinho: "Bem-bem-bem...te-te-te...vi-vi-vi!"

Os ornitólogos devem saber se isso é caso comum ou raro. Eu jamais tinha ouvido uma coisa assim! Mas as crianças, que sabem mais do que eu, e vão diretas aos assuntos, ouviram, pensaram e disseram: "Que engraçado! Um bem-te-vi gago!"

(É: talvez não seja mesmo exotismo, mas apenas gagueira...)
Posted by Picasa

7 comentários:

BLOG DE UMA ROSA disse...

Olá Maria Alice!Adorei a gaiola, linda linda.

Betty Gaeta disse...

Oi Maria Alice,
Adorei o texto. Lá em casa sempre aparecem bem te vis, agora não tanto por causa dos gatos, mas ainda dá para ouví-los.
Bjkas e um ótimo dia para vc.

http://gostodistonew.blogspot.com/

Maria Célia disse...

Oi Maria Alice
Lindo texto de Cecília Meireles. Ainda bem que a sua gaiola linda tem um passarinho de mentirinha.
Bjo

KINHA disse...

Olá Maria Alice

Passando para agradecer sua visita e deixar um beijinho. Hoje estou com muita pressa!!!!!!!!!

Bjooooooooooooo..............

http://amigadamoda.blogspot.com

Ceiça Frota disse...

Lindo texto! Tb Cecilia Meireles não poderia ser diferente!
Bjs
garimpus.blogspot.com

Sandra Aguiar disse...

Oi! Obrigada pela oportunidade de conhecer este lindo texto.
Gosto de gaiolas só assim... de enfeite, sem passarinho preso.
Um abraço. Um lindo 2011 prá você e familia.

Lila Rosana disse...

Olá Maria Alice querida,
Quando eu falo que você é uma mulher elegante e delicada você não acredita, né?? Mas, me diga uma coisa: Que tipo de mulher teria a delicadeza e sabedoria de criar em seu espaço de arte a sutil e delicada inspiração? Uma gaiola branca e aberta com um lindo passarinho livre para voar... Quanta poesia!
Vir aqui é sempre maravilhoso!
Obrigada pela doçura dos seus posters.
Abraços,
Lila